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A insustentável sonsice da política local

As injúrias políticas no mesmo partido fazem parangonas, os desditos dos ex-inseparáveis marcam vergonhosa e indelevelmente a separação, os milhões do débito público aumentam à proporção da contenda tornando-se tão incomportável quanto o descrédito.  

Quando se pensa que já atingimos o grau zero da desonra institucional e da ofensa pessoal, eis que surge novo tremor que agita mais do que o anterior e extravasa o desvario da governação local. Tomemos como exemplo a desorientação e o enxovalho sobre três das situações mais preocupantes do município. 

Parceria PPP - pague-se 10 milhões porque não deixaram pagar 6,5 milhões quando a proposta era de 4,3 milhões. Altercação pública dos contendores: “Mente tanto que já não se lhe reconhece legitimidade politica”. “Não acredito nas contas dele, tinha obras de gaveta”.

Água – negociata criminosa do PSD artificiosamente negociada pelo PS. Remunicipalização em vias de concretização, dizia-se em 2012. Está tudo em aberto diz-se em 2016 e possivelmente haverá acordo em finais de 2017. Condenação por reequilíbrio financeiro de 172 milhões com recomendação de provisão de 60 milhões no próximo orçamento. Aquisição de 75% por 37 milhões, Acordo de Princípios por 87 milhões, PPP com 49% por 78 milhões, Resgate por 100 milhões que pode chegar aos 200. No meio deste enlevo de milhões, convém lembrar que se trata de dinheiro público, e que o valor global do último orçamento municipal foi de 60.8 milhões. Quantas gerações de barcelenses sofrerão com esta hipoteca?

Perante esta ameaça de penhora sempre a pairar como uma espécie de cutelo de insolvência, as fações PS digladiam-se com acirrados impropérios. “Estratégias sujas que têm como objetivo denegrir e enlamear o bom nome do presidente”. “Está tudo a ser acordado nas nossas costas. Ele fecha-se em copas, a Câmara está muito pior que no tempo de Fernando Reis”. “Vereadores sem pelouro andam a fazer pressão junto dos acionistas para eu não fazer o acordo”. “A liderança socialista não confia, nem um pouco, em Miguel Costa Gomes. Mente recorrentemente”.  

Linha de Alta Tensão – depois de 61 moções contra aprovadas em Assembleias de Freguesia, moção de rejeição aprovada em AM por unanimidade, criação de uma comissão de presidentes de junta e agora de uma comissão composta por deputados municipais, presidentes de junta, Assembleia e Câmara Municipal, só falta mesmo encetar a luta. Não se pode continuar entretido no diz-que-disse do foi ou não foi, coroado com a dissonância da atitude de que entregar, não entregou, mas mostrar, mostrou. O presidente indigitado pela edilidade e pela AM para manifestar contrariedade à pretensão da REN, destemidamente mostrou, mas não entregou, traçados alternativos como forma de repúdio pela passagem da linha pelo concelho. Ardiloso subterfúgio de contestação. Vá lá, aproveitem isto que eu mostrei, mas não entreguei, e desviem um bocadinho o canal para o lado do mar. Tal como nas negociações da água em que foi dada “carta-branca”, o presidente declarou esta outorga como segredo pessoal de autoconsideração e de relevância do cargo. Não se dão informações porque só atrapalham a inaudita capacidade negocial. Esta soberba foi tacitamente aceite pela edilidade durante muito tempo e até apoiada como estratégia muito assertiva, só agora que a benquerença derramou é que se faz a ameaça do “ainda está muita coisa por explicar e que se nos começam a provocar, qualquer dia vamos ter de dizer tudo”. Então porque se não diz? Reproduzem a tática do secretismo guardando a melhor insinuação para destilar no correr do tempo. Assim nos entretêm dizendo que “Ele tem medo da sombra” e o Ele diz que “mete em tribunal quem disser que apresentou traçado alternativo”.  

Em mais um momento hilariante desta fratricida disputa, para gáudio jornalístico, surge a notícia do levantamento de dinheiro das contas bancárias do município, como forma de se precaver contra eventuais penhoras. Mais uma vez a colérica troca de galhardetes farpados. “O PS quer criar alarme social”. “O processo parece uma história de miúdos da 4ª classe, o presidente está a brincar com os barcelenses”.  

É verdade que toda esta deplorável história é demasiado perniciosa para ser verdade. É verdade que toda esta indecorosa brincadeira descredibiliza a política e o poder local. Mas também é verdade que compete aos cidadãos não permitir que o nosso município se transforme numa espécie de Barcelândia, em que os partidos da governança, antes PSD e agora PS, brinquem com a confiança neles depositada e aniquilem a esperança. Haja respeito pelas pessoas, desempenho pelos compromissos e probidade pela causa pública.   

Apareçam outros projetos partidários e outras visões políticas, que engrandeçam o concelho, potenciam as oportunidades e valorizem os munícipes. Apareçam estratégias de desenvolvimento que sejam realmente alternativas ao chorrilho de despautérios que muito nos tem lesado e hipotecado. Apareçam ideias novas de gente comprometida com o futuro, capaz de aniquilar esta insustentável sonsice de tolher em busca da terra do nunca!

 

Artigo de opinião publicado no Jornal de Barcelos