Tranquem as portas, escoltem os filhos, aprovisionem-se de mantimentos, metam os haveres no alçapão, não sonhem porque só terão pesadelos. Vêm ai os comunistas e outros ainda pior que eles e todos ainda mais radicais do que nunca. Enganaram o povo dizendo que tinham amansado os seus instintos extremistas e agora até querem formar governo. Que ousadia! Ao que isto chegou. Gente obsoleta que, nos dias de hoje, ainda falam em igualdade, justiça social, direitos dos trabalhadores, salários dignos e atrevem-se mesmo a retomar direitos como a educação, a saúde, a segurança social, a habitação. Gente afrontosa que põe em causa os offshores, que quer taxar as grandes fortunas de honestos banqueiros, que quer acabar com a indeclinável e imaculada austeridade e tem a desfaçatez de garantir que há dinheiro o problema é que está mal distribuído.
Como muito bem avisou o meritíssimo Presidente, o poder não é para a plebe. Há décadas que está instituído no país um apartheid de castas que determina a quem está destinada a governança, quem são os intocáveis, quem usufruiu das conveniências, quem interfere nas decisões e quem fica de fora. Até podem votar, estamos em democracia, mas não abusem. As eleições são importantes para certificar o que está determinado e para legitimar a ordem “natural” das coisas, ou seja, governa quem o Presidente quer. Pensam que podem derrubar o arquétipo social de um país tão antigo e tão histórico. O excelso Presidente de uma fação de portugueses, na suprema qualidade de guardião da estabilidade, valor tão caro aos mercados financeiros, não hesita em lançar a instabilidade para que continuem a governar os mesmos, os seus, a sua seita, mesmo que haja outros em melhores condições de assegurar a estabilidade.
O Presidente da República do meu país discursou como um monarca tribal. Retomou o velho hábito das “conversas em família” e à boa maneira salazarista, mofento e segregacionista, apontou de dedo em riste quais os meninos que têm de se manter no fundo da sala. Os lugares da frente estão há muito ocupados. É tradição.
Em vez de se limitar à formalidade da constituição que jurou cumprir resolveu sair da hibernação do mandato e acenar à populaça com uma preleção sobre a pedagogia da exclusão. Desde ameaças ao (a)normal funcionamento das instituições até aos juízos de valor sobre atitudes e responsabilidades, terminando com insinuações de propósitos e chantagens de opções politicas, o oligarca clamou por um bloqueio às forças demoníacas da Esquerda. Esta fascizante ambição, condecora, com reconhecido mérito, o infausto percurso político desta pesarosa figura da democracia portuguesa. Acresce dizer que as suas pategas pretensões resultaram ao contrário. Mais um tiro no pé! Ao fim de tantos anos de política, infelizmente, de tantos cargos desempenhados, tristemente, não percebeu que com esta missiva reacionária alinharia toda a Esquerda. Que grande favor fez ao PS, até os mais descrentes passaram a acreditar e os mais críticos se calaram.
A Direita em desespero, percebendo que o tapete lhes foge e se irá virar uma página na história da nossa democracia, envereda pela coletânea da malvadez e pela antologia do medo. Perderam o jogo mas querem ganhar na “secretaria”. Tomaram o país de assalto. O PREC está de volta e o “Verão Quente” de 75 incendeia o Outono de 2015. Vão esbanjar a riqueza acumulada nestes anos de empobrecimento generalizado. Traíram o arco da governação e destradicionalizaram o comodamente instituído.
A tradição, nova narrativa de uma pandilha de difamadores, como fundamentação dos perversos intentos da deriva direitista, é um conceito conservador próprio das monarquias e totalmente desajustado ao exercício da democracia, que se quer dinâmica. A democracia é encontrar alternativas para situações novas no quadro de hipóteses que melhor correspondem à decisão soberana do voto. A Constituição consagra que os Governos governam se o Parlamento assim o decidir. As legislativas servem para eleger um parlamento e não para indicar primeiros-ministros. O problema não está em se formarem governos minoritários, já funcionaram e com toda a legitimidade, a questão que ao momento se coloca é que há uma maioria parlamentar que não aceita esse governo.
Estas eleições tiveram o condão de abrir a discussão. É um cenário novo onde os portugueses se movem com curiosidade e enlevo. Hoje discute-se política em qualquer café, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos grupos de amigos, nas associações. A política está na centralidade das conversas e cada um opina sobre possíveis cenários e soluções. As pessoas falam sobre o que é importante nas suas vidas, o que as afeta no seu quotidiano, o que desejam de mudança e o que anseiam para futuro. É um tempo de expetativa e de indefinição, mas é também um tempo de esperança.
Vivemos um dos períodos mais emocionantes, mais estimulantes, mais aguerridos da política do nosso país. Vivemos um momento histórico de partilha da Esquerda, de derrube de muros que se pensava intransponíveis, de junção de forças que coloca a política ao serviço dos cidadãos, de conversações e de vontades em torno de um programa concreto para melhorar a vida dos portugueses.
Se é certo que ficou explícito que a maioria da população não quer mais a Direita a governar, também é certo que compete à Esquerda criar uma alternativa que marque a diferença, que restitua a vida com dignidade, que responda aos gritantes problemas económico-sociais, que possa gerar emprego com direitos, que contribua para uma sociedade mais justa, mais igualitária de oportunidades, mais coletiva com mais e melhor serviço público. A Esquerda é a força da esperança para o futuro das nossas vidas.