Share |

Valorizar a política pela dignificação do poder local

Na passada semana foi apresentada em Barcelos uma híbrida coligação eleitoral autárquica. O movimento Barcelos Terra de Futuro (BTF), gerado por dissidentes do PS na que há 4 anos tinha como grandes objetivos ganhar a Câmara e obstaculizar o regresso da direita ao poder local, alia-se agora ao PSD e CDS. Noutra razão da sua existência, o BTF tinha por intenção evidenciar a força da cidadania contra os vícios dos partidos e a lógica da dominância dos aparelhos. Que coerência! Que nobreza de princípios e atitudes!

Para fertilizar este enxerto político temos o entusiasmo lancinante das direções locais. Veja-se o ataque político e pessoal de culpa direta nos desmandes e transgressões do município, lançado pelo atual presidente da concelhia do PSD, na última reunião de AM, sobre o mentor-mor à volta de quem se formou o BTF e atual parceiro de coligação. Ou a (des)cortesia formal do presidente local do CDS que em plena apresentação da salvadora aliança, disse que o concelho “parou no tempo” numa alusão à total inércia dos 12 anos de governação socialista, da qual o pragmático aliado foi vice-presidente em metade desse período.

Depois de sondagens sobre o melhor dos indicados e de lançamento público de uma candidatura empresarial, eis que temos - num cenário mesclado de laranja e azul como que a fundir o colorido das partes e perante a designação de Barcelos mais Futuro, mesmo que com os candidatos, nomeadamente os cabeça de lista, a serem os mesmos dos últimos anos - a apresentação de uma forçada coligação imposta pela sobrevivência politica de uma direção nacional que tem como único objetivo recuperar câmaras para apresentar resultados, mesmo que seja, como é o caso, à revelia das estruturas partidárias locais.

Lembre-se que esta imposição de cúpulas nacionais não aceite pela direção local foi o que esteve na base da dissidência e formação do BTF, num outro espectro partidário. Dirão os apaniguados sinceros. Sim, é verdade. Mas isso já foi há cinco anos e em política a dinâmica dos interesses e a cólera pessoal supera os ideais e as convicções. Mais vale um acordo envenenado na mão, do que concordâncias convictas a voar.

Do outro lado da barricada partidária, cá temos o recorrente jogo das cadeiras do poder. Com apoio distrital e beneplácito nacional publicita-se por antecipação uma putativa candidatura de contrariedade aos intentos internos. Estes, evidenciam-se como uma espécie de produção local da política russa (alternância de Putin / Medvedev). Agora eu vou para ali e vens tu para aqui, para depois eu voltar para aí e tu vires novamente para cá. Entenda-se por desideratos pessoais de percursos transitórios entre Câmara e Assembleia Municipal.

Pelo meio temos a fação de género a lembrar, e bem, que a quota feminina não é para compor ramalhete legislativo. A completar cenário socialista de comunhão de objetivos e conjugação de propósitos, se por aqui terminar, temos o prenuncio da candidatura pessoal de um promissor presidente de junta, desavindo com o facto de ter sido relegado da lista dos eleitos em favor da promoção de detratores do partido.

Desta amalgama de companheiros de partido, todos dispostos à negociação das partes em nome do objetivo comum que é Servir Barcelos – empolgante slogan para quem durante 12 anos destituiu a apregoada mudança e destruiu a esperança de tantos munícipes - resulta um total desentendimento com novidades semanais ao ritmo da edição dos jornais locais. Afinal está resolvido, segundo a Direção Nacional - fica a mulher em segundo e o da outra fação em terceiro. Responde o Secretariado concelhio - Informam-se os militantes de que a lista para a Câmara que anda a ser divulgada não resulta de qualquer acordo entre a Concelhia, a Federação e a Nacional. Termina mensagem enviadas aos militantes com o alerta e a expetativa de que em breve haverá novidades e ironicamente envia saudações socialistas. Só faltou informar que estavam todos unidos, não vão os menos atentos pensar o contrário.

Caro/as concidadão/ãs barcelenses não se deixem embalar por estes fait-divers de conversa fiada, por estes táticos jogos de deslealdade política e pessoal, por estes enraivecidos amuos de ocasião. Lamentavelmente esta triste imagem da política é recorrente no nosso concelho.

É salutar haver discussão interna nos partidos e/ou movimentos, é democrático confrontarmo-nos com opções distintas e posições contrárias, é engrandecedor debater a pluralidade para construir a unidade. Mas, em nome dos valores e da dignidade da politica, é exigido que saibamos dirimir essas contendas com respeito, com lealdade e nos momentos e locais apropriados.

Não propiciem que a “espuma dos dias” preencha a notícia e o acontecimento. Saibamos distinguir o acessório do fundamental. E o essencial é que cada candidatura diga ao que vem, em que se diferencia, qual o projeto e os meios para o executar, o que aprendeu com o passado, o que pensa para o momento e o que preconiza para futuro. Traga a política para a campanha e a campanha com a política para a praça pública.

Que respostas à crise social e económica gerada pela pandemia? Como garantir o direito à habitação e exigir a construção de habitação pública – promessa não cumprida de Abril? Que contributos municipais para o combate às alterações climáticas? Que plano de mobilidade e de política de transportes coletivos se pretende implementar? Que apostas na cultura, no desporto, no lazer, na criação de espaços verdes? Que modelo de urbanismo, de criação de infraestruturas e de ordenamento do território? Que medidas de inclusão e de real participação cidadã que elimine qualquer tipo de discriminação? Qual o papel do município na defesa do ensino público, no SNS e na segurança social?

Estas e outras são muitas das questões, para as quais a população precisa de conhecer as possíveis respostas e posições dos programas eleitorais, para melhor definir as opções. Este é que é o jogo da democracia e é neste contexto que as candidaturas devem ir a jogo. Saibamos valorizar o papel das autarquias, como força de intervenção e dignificação do poder local.

 

Artigo de opinião publicado no Jornal de Barcelos.