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Tempo de assentar a poeira!

Começo por dizer que este artigo de opinião transcreve ideias e propostas apresentadas no meu discurso de tomada de posse na AM, da passada quinta-feira.  

Em jeito de introito estupefacto sobre essa mesma reunião da AM, para além da rasurada confusão linguística entre renúncia e substituição de deputados do baralhado PSD, registo, sem agrado, a memorável ocorrência que jamais vi em plenários deste órgão. Estando em causa a eleição para a presidência e composição da Mesa da maior AM do país, o que não é de somenos importância, uma fação do PS votou a favor do PSD para derrotar a outra fação do PS. Para além de ser uma atitude política inconcebível e grosseira com uma falta de visão confrangedora, é também uma postura ética deplorável. A tranca de deglutição ao azedume eleitoral é de tal calibre que inflama a visão política, numa espécie de conjuntivite de entorpecimento mental. Será que ninguém do BTF percecionou que com esta atitude cava um suicídio político? Será que não perceberam que esta é uma nódoa indelével que servirá de arma de arremesso em qualquer circunstância? Será que a ingenuidade doentia ofuscou a leitura da influência de quem exerce o poder, ao ponto de apostarem numa vingança requentada? O PSD/CDS perde naturalmente porque teve menos votos e menos representantes na AM. O BTF perde humilhantemente porque se alia a uma estratégia desastrosa, quando tinha a saída airosa de apresentar lista própria. As atitudes ficam com quem as toma, as implicações ficam para apurar.       

O PS ganha sem maioria na Câmara e sem maioria na Assembleia Municipal, facto democraticamente salutar. As maiorias absolutas, regra geral e Barcelos não é exceção, tendem para o absolutismo. Assim, abre-se um novo ciclo de exercício do poder e o PS tem que fazer acordos com a oposição e perder a bazófia de se augurar em “dono disto tudo”. Veja-se o exemplo benéfico do governo central, tal só acontece porque o PS precisa do apoio dos partidos à esquerda. O BE aumenta a sua representatividade na AM, fruto do reconhecimento pelo distinto trabalho desenvolvido pelos deputados municipais que tão dignamente têm representado o partido neste órgão, nomeadamente neste último mandato. É aqui que desenvolveremos o trabalho autárquico renovando os compromissos que publicamente assumimos com os barcelenses, plasmados no programa eleitoral. Somos fiéis ao que dizemos e fazemos da palavra o comprometimento da reivindicação. Agora é tempo de assentar a poeira e começar uma nova fase de intervenção, muito mais de ação e reação do que de preleção.

Esperamos que as promessas de campanha sejam concretizações de mandato – por exemplo: remodelação do mercado, fecho da circular externa, frente fluvial, centro histórico. Que as preocupações manifestadas pelas candidaturas continuem como orientações de intervenção social e politica. Linha de muito alta tensão, novo hospital, parque urbano, transportes coletivos… Será que vamos continuar a assistir passivamente à agonia do rio Cávado, ou finalmente vamos criar uma frente popular em defesa da sua despoluição e do uso das suas águas e margens? Todas as candidaturas se comprometeram com este desiderato. Não se esqueçam que foi com estes programas que se apresentaram à população e foi nestes projetos que os barcelenses votaram. O BE estará atento e vigilante aos desvios de conjuntura.

Não podemos esperar mais por obras estruturantes para o concelho. Não podemos continuar a adiar a resolução de problemas prementes que garroteiam o município. Água e PPP´s. Não podemos manter um estado de faz-de-conta dissimulado pelo manto do segredo de negócio.

Basta de intrigas palacianas, de marasmo conformista, de desculpas ocasionais, de letargia anestesiante. Basta de visão redutora e de circunstância, sem estratégia nem definição de prioridades.

Precisamos de ir muito mais além do que a política de mera gestão contabilística, que tem sido apanágio de sucessivas governações autárquicas.

O Caminho faz-se caminhando, mas é preciso caminhar.  

Estamos há décadas a passar ao lado da carruagem do progresso, e cada vez mais afastados e a perder mais oportunidades. Precisamos de ação, de apostas concretas, de vistas largas, que de uma vez por todas se comprometa com um Contrato de Desenvolvimento Local que pense o concelho no tempo e no espaço e que nos projete na vanguarda do progresso, colocando-nos na 1ª fila do desenvolvimento nacional.

Precisamos de olhar para o território com as suas múltiplas dimensões, reparando fragilidades, integrando meios e aptidões, construindo alternativas que convoquem todos para a edificação das potencialidades, que reconhecidamente Barcelos possui.  

Temos o direito a ser felizes e a gostar da cidade e do concelho onde vivemos. O futuro é agora e o momento de viragem é este, sob pena de, legitimamente, as gerações vindouras não nos perdoarem o falhanço.