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Democracia formal vs. Democracia participativa

Na última edição deste jornal o articulista António Ribeiro, vereador do CDS, nesta coluna de opinião, teceu comentários infundados e injuriosos em relação ao BE que me impelem a responder com veemência. A liberdade de opinião é, obviamente, um direito inalienável e legítimo assumido por quem a manifesta, assim como a critica e o direito de contraditório. É com a assunção destas leais prerrogativas, que democraticamente expresso a altercação que passo a explicitar. Sem retirar do contexto porque é escrito na sequência da opinião, diz o articulista que “Questionamos Trump, Bolsonaro, Le Pen, entre muitos, e não Maduro, Syriza, PT, Bloco”. A ideia subjacente a esta vil insinuação é a do populismo insidioso que tudo é “farinha do mesmo saco”. Sem ser muito explicativo porque a maledicência e mesquinhez política da afirmação fala por si, quero, no entanto, dizer-lhe que os insanos devaneios de Trump e as incursões racistas e xenófobas de Le Pen, são apoiadas por muitos militantes do seu partido, por vezes de forma dissimulada, que vociferam por esses preceitos fascistoides. Veja, por exemplo, os hostis escritos de imprensa do vosso trauliteiro eurodeputado.

Sobre a tragédia Bolsonaro não vi do CDS, até ao momento, qualquer posição oficial de contestação ao desastre da hipotética eleição, tendo por tática de que não levantado poeira, nada se diz e nada se compromete, porque nada é connosco. É inaceitável que um partido democrático não tome posição perante a ascensão de um fascista que repele a democracia. O perigo é tão grande que não é só dos brasileiros. Está em causa um retrocesso civilizacional que por contágio ameaça o mundo. É evidente, que entre muitos outros fatores, também se imputam responsabilidades aos atropelos governativos do PT que se tornou uma descrença de expetativas e uma desesperança política. Mas o que está em jogo é entre a democracia e a ditadura, a liberdade e a repressão, os direitos e a exclusão, a mescla identitária e a intolerância da exclusividade. Sobre isto não há meias medidas, não há abstenção, sob pena de ser complacente com a eleição do déspota. Uma das mensagens mais apelativas que vi na campanha eleitoral brasileira, diz: “A Formiga com raiva da Barata votou no inseticida. E todo o mundo morreu. Inclusive o Grilo que se absteve do voto”.

Já agora, registe, para asserção de próxima opinião, que o BE considera que as ditaduras não são de esquerda nem de direita, são ditaduras. E é por isso que apelida Maduro de Caudilho, ao mesmo tempo que destitui a oposição patrocinada pelos Yankee`s. A propósito da Venezuela convém reavivar a memória e perceber como Chavez abriu Portas aos negócios e à amizade com o nosso país. Leia as declarações do vosso guru ideológico, à época, aquando da morte do querido amigo que agora consideram um tirano. Na senda dos regimes autocráticos, o BE também não tem qualquer pudor em afirmar que a Coreia do Norte é uma ditadura cruel, sanguinária, de culto oligárquico.

Sobre o Syriza a grande contrariedade não é de princípios políticos, mas sim pelo facto de ter capitulado perante a opressão da UE. Veja-se o resultado das imposições restritivas ao povo grego. O país sai do memorando mergulhado em dívida e com mais austeridade.

No rosário do seu rancor visceral à esquerda, a referência ao Bloco nessa prateleira dos horrores, é assim como que o efeito de uma visão toldada pelo arcaísmo de emoções odiosas em jeito de fantasia monástica clamando pela chegada dos ímpios.

Continuando a saga dos pavores, diz-se noutro ponto do artigo que “...enquanto à esquerda se acumulam promessas, mente-se sem pudor, (...), caiem as máscaras todos os dias aos trotskistas-populistas cá do burgo.” Entendendo burgo por povoação que se desenvolveu junto a fortificação ou castelo, vulgo cidade, esta alusão deixa-me intrigado. Será que não há engano no destino do recado subliminar? Não será uma provação de fé do remetente que se autodesmascarou na cólera incontida às posições políticas do BE? Numa outra pista interpretativa, também se pode encarreirar, o desesperado ato de bravura linguística, no trilho de uma imprecisa delimitação territorial e de denominação política equivocada. Porventura não quereria apelidar de troikistas-populistas? Será que não pretendia evocar os feitos danosos do irrevogável ministro dos submarinos e dos chorudos sobreiros vertidos em contas bancárias até ao Jacinto Capelo Rego? Ou a ministra da prece da chuva, da obscena lei das rendas que provocou desumanos despejos e do criminoso eucaliptal? Ou a santidade ministerial do assistencialismo misericordioso que delapidou o estado social por umas quantas associações da cristandade retrógrada, tornando muitas delas em escolas de formação ideológica para captação de partidários, numa versão light de Madraças do catolicismo?

 

Um foragido a fazer a travessia do deserto à espera da oportunidade, outra em ascensão partidária ao leme de uma nau na crista da demagogia e um outro a recuperar fôlego para novos batismos sacrossantos, cá se mantêm todos debaixo do mesmo pálio.

 

Noutra parte do artigo está entalhada em lápide uma preciosidade revolucionária. “Que estamos a fazer ou a deixar fazer da democracia que tanto nos custou conquistar em Abril e depois reconquistar em Novembro?”

Que o golpe da contrarrevolução do 11 de Novembro seja dia de comemoração para o CDS, acredito sem reservas. Que Abril custe a engolir para muita gente do CDS, também não tenho dúvidas.

Ora identifique algum reconhecido dirigente do seu partido que tenha lutado contra o antigo regime para que partidariamente possa sustentar o que nos custou a conquistar? Mas custou a quem? Lembro que o CDS, pela mão de Freitas do Amaral – hoje um perigoso esquerdista, foi o único partido que votou contra a Constituição de Abril em 1976.

Com certeza que ambos defendemos a democracia e nada disso ponho em causa, até porque a altercação é política e nada tem de pessoal. Mas como há vários estádios da democracia, o nível que o CDS defende não é o mesmo do BE. Não quero uma democracia formal em que o povo até tem direito de voto e a poder manifestar-se, com juízo. Uma democracia de elites e de direitos reservados em que uns poucos dizem a tantos como se devem comportar e o que podem reivindicar. Onde o Estado é um mero espetador das lutas fratricidas do impiedoso liberalismo económico.

Quero e defendo uma democracia plena, de liberdade total, do direito à exigência. Plural de opiniões, moderna de conceção, inclusiva de participação. Estado de obrigações sociais, de intervenção económica estratégica e de promoção da igualdade e da coesão. O BE, responsavelmente, dá apoio parlamentar ao governo do PS, para travar a deriva liberal do crime económico-social das privatizações. Para inverter a perda de direitos, derreter a austeridade e recuperar a dignidade de um povo fustigado pela recessão. Para comprovar que outras políticas e outras medidas são precisas e possíveis. Mas não enjeita, nem abdica do seu desiderato político inscrito na matriz fundacional. Transformar a sociedade numa democracia participativa rumo ao socialismo.

 

Adaptado pelo autor do artigo publicado no Jornal de Barcelos / 24. Outubro