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Novo Hospital, velha reivindicação!

Se há tema que irrita ver mantido em agenda sem concretização, é o da construção de um novo hospital. Sendo certo que tem havido inoperância e falta de autoridade política do poder autárquico, também é verdade que, nesta matéria, Barcelos tem sido continuamente desconsiderado e desprezado pelo poder central. Não digo isto com a reserva bairrista ou com a visão redutora, por vezes mesquinha, de defesa intransigente da nossa terra. Digo-o baseado em factos que nos últimos anos fizeram com que o hospital fosse sendo desmantelado de valências, desclassificado de serviços e depreciado de funcionamento, com o propósito de alargar área de cobertura do hospital de Braga respondendo ao número de fregueses contratualizado na PPP. Em 2007 fechou a maternidade com a promessa de novos serviços e foi criado grupo de trabalho para elaborar o perfil funcional da futura unidade hospitalar. Em 2009 foi assinado o acordo estratégico para o lançamento de novo hospital. Em 2012 houve apresentação pública de maquete promocional do novo edifício. Em 2018 temos o hospital em rutura e a única certeza é que nada se sabe quanto ao futuro do atual hospital nem quanto à atualidade do futuro edifício.

O Hospital de Santa Maria Maior instalado em edifício e terreno da Stª Casa da Misericórdia, a quem paga avultado aluguer, apresenta uma estrutura física antiquada e em degradação, desequilibrada e exígua, o que provoca imensos constrangimentos. Sem possibilidade de expansão nem capacidade de renovação, limita-se a intervenções pontuais de remediação numa espécie de paliativo, o que se tem traduzido em falta de modernização e perda de diferenciação de especialidades. Inserido na malha urbana em pleno espaço central, o acesso ao serviço de urgências está fortemente estreitado – veja-se a situação terceiro-mundista aquando dos dias de feira semanal e festas; o recato e tranquilidade imprescindíveis ao internamento é permanentemente posto em causa – atente-se ao barulho quando há atividades desportivas no pavilhão ou quando decorrem feiras e festas no parque; urgências lotadas de macas em encolhidos corredores de claustros, enfermarias apinhadas de utentes e sem garantia de devidos isolamentos, elevador único para todo o serviço seja ele de limpeza, de refeições e/ou transporte de doentes. Acresce dizer que perante todos estes condicionalismos, com falta de condições dignas ao exercício da atividade e em situação de previsível esgotamento funcional a médio prazo, a atração profissional deste hospital para desenvolvimento de carreiras é quase nula. No entanto, digo com a asseveração da opinião corrente, que nenhum dos problemas enunciados, que são reais, é objeto de imputação de culpas aos profissionais que ali trabalham. Em primeira instância são eles os que mais padecem da calamitosa situação e é à custa da sua dedicação e brio profissional que os problemas vão sendo atenuados.

O nosso hospital presta cuidados de saúde à população dos concelhos de Barcelos e Esposende, que ascende a 154 mil pessoas, com uma média de 7.000 urgências ao ano. Com 117 camas (algumas delas com mais de 50 anos oriundas da inauguração da “nova” construção) e 551 trabalhadores (dados de 2015 com redução acentuada de funcionários entre 2010 e esse ano), apresenta uma proporção de profissionais especializados e de camas por nº habitantes, bem inferior à média nacional. Há dias veio a Barcelos a Secretária de Estado da Saúde para selar um protocolo entre o Conselho de Administração e a Câmara Municipal sendo que esta se compromete a oferecer 22 camas e 8 macas hidráulicas. Registando a generosidade e a nobreza do ato, não creio que seja competência da autarquia tal atitude, a não ser que esteja por antecipação a exercer funções do pacote de descentralização. De seguida, a governante anunciou com regozijo que o hospital vai ter uma TAC, a correr bem, até final do ano. Pasme-se. Em 2018 um hospital que serve toda esta população não tem serviço de TAC. A alegação devia ser precedida de um pedido de desculpas à população pela vergonha desta desresponsabilização. Continuando na senda de hábeis declarações, a SE reforçou o descomprometimento do discurso oficial, decalcando o que o ministro respondeu à pergunta feita pelo grupo parlamentar do BE e o que o outro SE também já tinha dito. Hospital novo é uma prioridade. Financiamento não está previsto nem minimamente garantido. Talvez possa ser considerado no próximo Quadro Comunitário. Efetivamente, e mais uma vez, assim se manda para as “calendas gregas” o prioritário. Se o governo se ufana de ter folga orçamental, então porque se encolhe no investimento do serviço público? Se o governo quer marcar a diferença, então porque continua refém do défice e provedor dos desmandes da banca? Assumido publicamente, o BE colocará esta obra como ponto de negociação para o próximo OE, porque é neste documento estrutural que ela deve ser inscrita e ter garantia de execução.

Basta de reconhecer a necessidade, urge concretizar a recorrente e sempre adiada promessa. Barcelos precisa de ter um hospital funcional, de proximidade com as necessidades dos utentes da sua área de referenciação, capaz de dignificar o SNS e quem nele trabalha com um serviço diferenciado e de qualidade que transmita credibilidade e confiança à população. Deve-se abrir uma discussão pública, recorrendo a especialistas técnicos e a profissionais do meio, sobre o tipo de hospital que queremos e que devemos ter.

No âmbito da AM foi criada uma Comissão de Defesa do Novo Hospital, da qual faço parte, que tem de saber ultrapassar querelas partidárias, ser representativa do interesse coletivo e funcionar como força de pressão. Compete ao executivo camarário usar o seu papel institucional junto do governo central. Mas, acima de tudo, é premente formar um movimento de cidadãos - genuíno de motivação, plural de opiniões e abrangente de participação -, capaz de mostrar a força da reivindicação de um direito que é de todos.