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No final das contas, afinal o que é que conta?

A Europa foi a votos, não tanto quantos os correspondentes aos princípios básicos do exercício da democracia representativa. Particularmente em Portugal onde a abstenção atingiu, mais uma vez, níveis preocupantes. Quando cerca de 70% dos portugueses não votam, independentemente dos números que adotemos para a sua análise, a realidade é muito preocupante e precisa de reflexão séria. Não basta lamentar é preciso agir, motivar e dignificar os cargos políticos. O combate à abstenção não se faz por decreto ou com palavras vãs e de circunstância. A participação não pode ser feita em forma de apelo desesperado, mas sim construída pela invocação permanente criando condições para tal. Também não podemos aceitar a ideia de que há uma espécie de “partido abstencionista” – neste caso até ganhava por maioria – como uma atitude militante de não comparência. Na verdade, as razões que podem explicar, em parte, a abstenção são várias e não traduzem nenhuma homogeneidade de pensamento. Se para muitos é uma atitude recorrente de alheamento e desligação por desistência e/ou por acomodação, para outros configura um gesto de raiva e indignação face à União Europeia. Mas também há outros que justificam a ausência como uma forma de protesto e desilusão para com os políticos e outros ainda que acham que o Parlamento Europeu não lhe diz respeito e em nada interfere com as suas vidas. Nada mais errado, porque cada vez mais as decisões de Bruxelas condicionam a política do nosso país. É muito aqui que entram as campanhas e o papel dos partidos concorrentes. Mas também aqui se verificou que muitos partidos, por calculismo de objetivos, tornaram estas eleições numa espécie de primeira volta das legislativas. No entanto, também não podemos aceitar o discurso que utiliza os elevados níveis de abstenção para deslegitimar o ato eleitoral. As eleições ocorreram e dos resultados inferem vencedores e vencidos.

 

Tendo por base os resultados obtidos e por comparação o que é comparável – eleições para o Parlamento Europeu em 2014 – de uma forma sinteticamente objetiva diria que:

 

O PS ganhou as eleições e aumentou o número de deputados, mas ficou aquém do apregoado pelas suas hostes partidárias. Há cinco anos foi por “poucochinho”, agora foi por mais uns “pinguinhos”. Nem a habilidade teatral da demissão em nome da venerável liberalização das “contas certas” redundou na exponencial intenção das contas eleitorais.

O PSD mesmo tendo mantido o mesmo número de deputados, perde por “muitinhos” porque em nada capitaliza o desgaste do poder e em nada se afirma como alternativa. Tem-se tornado num rio em caudal de estiagem, travado por diques de convulsão interna.

O CDS afundou-se e ficou com o periscópio a boiar. Com uma campanha demagógica e de catavento temático, com um candidato trauliteiro de discurso radicalizado à direita, é relegado para quinto lugar com um único deputado eleito. Fica ao nível do PAN que triplica a votação e é uma das surpresas pelo espaço de afirmação da defesa dos direitos dos animais e pelo discurso antipolítico em nome da política. À boa maneira das suas causas, ideologicamente “não é carne nem é peixe” posicionando-se numa insustentável dualidade de não ser de esquerda nem de direita. Normalmente estas indefinições servem para momentos específicos, mas não perduram para a consistência no tempo da aplicação de políticas.

A CDU sofre uma pesada derrota com a perda de quase metade dos votos da eleição anterior, facto que é mais assinalável por se saber que este é, tradicionalmente, o eleitorado mais fiel.

Assumidamente tendencioso enquanto comentário sobre o meu partido, mas tentando ser factual e interpretativo, digo que o grande vencedor destas eleições é o BE. Não só pelo aumento de votação – mais que duplica passando de 4,5 para 9,8% elegendo dois deputados e aproximando-se do terceiro - como pela consolidação folgada de terceira força política. Para estes resultados contribuiu muito o grandioso e reconhecido trabalho realizado pela Marisa Matias durante todo o mandato, a excelente campanha tanto em dinâmica de aproximação às populações como pelos temas centralizados nos problemas concretos das pessoas, o não abdicar da critica às instituições europeias, à banca e aos grandes negócios, ao governo, ao PS e à direita, sem nunca cair no ataque gratuito e insultuoso ou nos casos da “espuma dos dias” marcados pela agenda fortuita de quem não quer discutir o discutível.

Na senda do que aconteceu no país, em Barcelos o BE também tem uma subida assinalável de votação obtendo a confiança de 2965 eleitores (7,8%) repartidos por todas as freguesias, tornando-se, pela primeira vez, a terceira força política no concelho. Este resultado evidencia a sólida consolidação do partido, sendo que cada vez mais se afirma como uma alternativa credível e de confiança para os eleitores barcelenses.

Termino dizendo que os eleitos do BE não defraudarão as expetativas de quem neles confiou e usarão cada um desses votos para responder à emergência climática com um novo paradigma de desenvolvimento, para reabilitar recursos naturais e promover uma outra educação ambiental, para defender o emprego com direitos e dignidade e pensões condignas, para exigir serviços públicos com qualidade, para lutar por uma Europa solidária, humanista, multicultural, equitativa, sem muros nem barreiras, tal como disseram durante toda a campanha. Assim se constrói e solidifica a confiança entre eleitores e eleitos e assim se contribui para a diminuição da abstenção.