Share |

Não fazer e fazer pior do que não ter feito!

Nestes últimos 11 anos de governação PS, mais propriamente reinado Costa Gomes, o nosso concelho trilhou inusitados e caricatos percursos. Começou por uma lufada de esperança rapidamente esmorecida; clamou por um direito de serviço público que foi encharcando a reivindicação e tornou o contrato da água em promessa não cumprida com episódios burlescos e negócios dantescos; postergou o principio da representatividade ao certificar que com dois membros do executivo se pode encarreirar uma câmara – caso de estudo e de absurdo; firmou a transferência autárquica do ano, quiçá do mandato, ao formar maioria de edilidade com imposição ao vereador da suposta oposição; trespassou pelo reino do incrível ao ser (des)governado a partir da casa do presidente, sendo este acolitado por um corrupio de zelosos estafetas. Para completar o ciclo do inconcebível entrou no reino do disparate e em roda-viva e toca a permitir betão por tudo que seja canto aberto. Onde em tempos se projetou um espaço lúdico- desportivo de continuidade do parque municipal com ligação ao rio (Campo da Granja) lá temos um hospital privado e um mamarracho, quanto se consta com um andar suplementar – bónus pelos bons serviços prestados ao município. Onde era defensável que se criasse um parque urbano de uso público e ligação à urbe (junto à rotunda do cada vez mais torcido e mais desbotado galo), lá está a medrar, a olhos vistos, um pavilhão industrial emparedado por cubos de calhau como marca indelével de como não deve ser uma entrada na cidade. Bem perto desta aberração, nas imediações do campus Politécnico, ergue-se outro ex-libris do antilogismo. Em forma de enquadramento do contraste como apologia da miopia paisagística, brota um volumoso edifício de pala superior invertida em formato litoral algarvio, cuja função é desviar o olhar para não agastar. Tudo isto é complementado por um conjunto vasto de obras de estética dissonante, algumas de licenciamento duvidoso com embargos não acolhidos, que pululam por várias artérias tornando a cidade num estaleiro de altaneiras gruas. O que aparentemente seria de valorizar pela pujança edificadora, na verdade não passa de uma oportunidade especulativa do negócio imobiliário. Será que a população do concelho está em forte crescimento? Não. Será que a cidade se tornou atrativa para viver pela novidade de infraestruturas e agradáveis espaços públicos? Nem pensar. Será que Barcelos é um moderno polo industrial/comercial que dinamiza o emprego e fixa novas populações? Exatamente o contrário. Este frenesim edificador coloca-nos ao nível dos incontroláveis atropelos urbanísticos, algures pelos anos 90, onde tudo era possível desde de que a contrapartida da conveniência fosse aceite.

Numa escala temporal de modernidade tardia e quando em muitas autarquias já se percebeu o logro dos benefícios, eis que chega ao burgo a Hiper ânsia das grandes superfícies comerciais. Para quem, enquanto presidente da ACIB, sempre contestou a edificação destes mastodontes do consumo enveredando pela defesa de uma irredutível Gália, deduzo que ultimamente esteja a descontar o tempo perdido com sucessivas aberturas destes devoradores do comércio local.

Para quem tem um rio que atravessa o concelho de lés-a-lés (24 Km de extensão), que é progenitor da cidade, que enquadra o edificado patrimonial, que tem uma relação intima com os/as barcelenses e é, porventura, o tema mais consensual na defesa de um bem coletivo, é um crime ambiental, mas também social, pouco ou nada fazer para o devolver ao usufruto da população. Acresce dizer que nem sequer o que estava a ser intervencionado pelo vereador com mandato suspenso teve continuidade. Quando finalmente se olhava para o rio com uma visão estruturada e com assentamento de consolidações práticas, todo esse trabalho foi desperdiçado e ignorado.

Este verão o rio até serviu para uma caricata altercação de direito de posse. O areal de Barcelinhos a ser reivindicado por uma família. É absurdo, é. A pretensão é descabida ou tem base legal? Não sei e tenho dúvidas. O que sei é que a Câmara deixou chegar o caso a esta anedótica situação. Porque é que não tratou atempadamente de resolver o imbróglio? Porque não despoletou a expropriação de terrenos particulares para domínio público? Porque não encetou o processo de classificação de rio navegável e flutuável que lhe confere propriedade dos terrenos de leito? Porque, como sempre em sucessivas governações, desprezou o rio e o seu património, esqueceu a memória coletiva e a identidade cultural de uma população, arredou-se de responsabilidades fiscalizadoras e deixou chegar ao descalabro e agora escusa-se a agrupar sinergias e a erguer a reivindicação de devolver o rio à população.

A despoluição, a renaturalização e a reabilitação do nosso rio terá de ser uma prioridade. Nesse sentido lanço o repto de se formar um amplo movimento de cidadãos/ãs capaz de colocar na agenda política, local e nacional, esta pretensão e exigir este direito. Não esqueçamos que nos próximos tempos teremos dinheiros europeus à farta, nomeadamente para a defesa da sustentabilidade ambiental.

Por falar em fundos comunitários, mesmo que noutro registo, chamo a atenção para a eleição dos presidentes das CCDR a decorrer no próximo dia 13. Para que serve e a quem serve esta eleição? A farsa democrática levou à seleção dos candidatos por convénio das cúpulas do Bloco Central, numa espécie de Tratado de Tordesilhas regionalista que determina aos súbditos municipais em quem votar.

Em jeito de alerta sobre o que estamos a votar, particularmente para os membros do colégio eleitoral (vereadores, deputados municipais e presidentes de junta), proponho a leitura, se assim o entenderem, da posição política por mim manifestada em nome do GP do BE e que pode ser consultada no seguinte endereço eletrónico: https://www.esquerda.net/opiniao/afinal-para-que-servem-eleicoes-para-cc...

 

Artigo de opinião publicado no Jornal de Barcelos.