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Hoje soube-me a pouco!

O país foi a votos no ato eleitoral que mais candidatos agita. Elegeram-se milhares de autarcas nos 308 municípios e nas 3092 freguesias num momento de participação ativa sem paralelo. É a maior manifestação de democracia representativa que o legado de Abril permitiu criar e que no passar do tempo Portugal soube consolidar. Exacerbam-se atitudes, disputam-se posições e inflamam-se paixões. Tudo é vivido com a intensidade da contenda pessoal em nome da proximidade do poder, muitas vezes irracional e demasiado fulanizada. Prometem-se promessas contínuas, desresponsabilizam-se responsabilidades de executivo, ilude-se com a ilusão de que agora é que vai ser. É assim se passam as campanhas sem nada dizer de concreto para que se possa governar sem concretizar nada. Tem-se sempre a real impressão de que pouco se discute em nome dos eleitores e muito se apregoa em nome dos eleitos, numa clara perversão da razão de ser da própria eleição. Lá nos vamos habituando a que assim seja ao ponto de acharmos estranho que alguém diga que assim não deve ser. Por isso, considero que as eleições autárquicas, não por antítese de vocábulo mas por manipulação dos atos, são uma das fundadas conquistas da democracia ao mesmo tempo que uma das excrescências democráticas que aprisionam o voto e condicionam a escolha. Não invalido resultados nem desprestigio as legitimas opções, mas também não certifico a aptidão para o encantamento de hordas de arregimentados. Neste contexto reproduzo algo que li muito a propósito do momento. “Na Catalunha prendem-se pessoas que querem votar, em Portugal vota-se em pessoas que deviam estar presas”.

Não quero dizer com isto que não se deva participar ativamente em todo este processo, até porque seria um contrassenso para alguém que tanto se envolveu e que até foi eleito para um dos órgãos em disputa. No entanto, devemos ser críticos e exigentes de modo a contribuir para um debate de propostas e projetos que aprofundem a democracia e não permitir que a feira de vaidades, a oferta da bugiganga ou a festa do artista pimba com porco no espeto, se sobrevalorizem.    

Os resultados destas eleições são, sobretudo, os de cada uma das candidaturas. Cada autarquia e cada desfecho eleitoral tem a sua história e o seu contexto. No entanto, mesmo individualizando cada caso, há um conjetura de fatores nacionais que fundamentam explicações e que equacionam consequências. A nível nacional há um grande vencedor, o PS. Com quase 2 milhões de votos cobriu o país de um mapa cor-de-rosa autárquico. Há um grande perdedor, o PSD. Humilhado no Porto e em Lisboa, estraçalhado a Norte e varrido do mapa autárquico do Sul. Há um perdedor significativo, o PCP. Vê fugir 10 Câmaras e algumas delas muito significativas como bastiões comunistas desde sempre. Há um a quem a noite aparentemente não correu mal, o CDS. Disfarça maus resultados, em muitos casos coligado com o PSD, com a votação de Cristas em Lisboa que lhe faz subir a fasquia pela disputa da direita. Há um com um crescimento moderado, o BE. Fica aquém da expetativa e não se afirma no panorama autárquico. Cresce em votos -mais 50 mil, em mandatos – vereadores, deputados municipais e freguesia, mas fica com a sensação amarga de que algo mais se esperava. Há um demagogo populista que lastimavelmente triunfa – Isaltino Morais, e dois populistas ressabiados que ditosamente são derrotados (Narciso Miranda e Valentim Loureiro).   

A nível local há um vencedor incontestável que é o PS e pessoalmente Costa Gomes. Há um perdedor absoluto que é o PSD. Numa conjuntura de fações e frações do PS com animosidade pública dos candidatos, o PSD consegue a distinta proeza de ter menos votos num universo maior de votantes, tanto para a Câmara como para a AM, e ganhar menos juntas do que há quatro anos. Há um perdedor esperado, BTF e pessoalmente Domingos Pereira. Apostou tudo que havia para competir, afrontou o poder central do seu partido, pessoalizou a contenda a dois. Ficou muito longe do pretendido. Há o início de um novo exercício do poder no nosso concelho. O PS ganha sem maioria na Câmara e sem maioria na Assembleia Municipal. A ver vamos quais os acertos e/ou arranjos que se farão. Atendendo aos diferentes cenários eleitorais ventilados, digo que este resultado foi assim como que do mal, o menos. O PSD perdeu e isso é digno de registo. Continuo a dizer que se ganhasse estávamos perante um retrocesso civilizacional no concelho. O PS não tem maioria executiva nem deliberativa e terá que se despavonear e auscultar as partes. O BE aumentou a representação na AM passando a ter dois deputados, o que lhe pode conferir uma intervenção decisiva atendendo à repartição das bancadas. É verdade que o resultado do BE não foi o esperado. Tal como a nível nacional, soube a pouco perante o muito que se almejava. No entanto há que referir que para a AM, por comparação de há quatro anos e fazendo as devidas ponderações da transferência de votos para o BTF, o BE é o único partido que sobe de votação em cerca de 400 eleitores e por conseguinte aumenta o número de eleitos. Em nome desta candidatura aproveito para enaltecer os barcelenses que acreditaram no projeto do BE e assim creditaram o seu voto e afirmar peremtoriamente que tudo faremos para merecer essa confiança. Foi assim que os cidadãos votaram e por muitas interpretações que se façam, isto é a democracia. Quem assim não entender não é democrata. Felicito o PS pela vitória, bem como os vencedores nas Freguesias, e saúdo todos os partidos e movimentos que se candidataram e todos quantos compuseram as mesas de voto como engrandecimento da cidadania. Quanto ao BE aqui estaremos como sempre estivemos. Tudo faremos para juntar forças e exigir uma política autárquica de esquerda que responda aos reais problemas das pessoas. Exerceremos permanente vigilância ao executivo camarário e pugnaremos sempre pela defesa das propostas que constam do nosso programa eleitoral. “A única luta que se perde é aquela que se abandona”.