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Discuta-se o que é discutível!

Vindos de banhos e de veranear, ainda com a mente entorpecida pela luminosa torreira, siga para a rentrée política com temas que foram suspensos e outros que se anteveem prementes. Este clássico figurino que marca o ritmo anual dos acontecimentos políticos, este ano não evidencia esta calendarização. Na verdade, nem o que parou foi notícia porque já estava parado, nem o que está para vir é novidade porque não há temas novos. O vírus tomou conta das nossas vidas.

Mas afinal aprendemos, ou não, com o que se passou e está novamente a passar em tantos países e com o que se passa no nosso? Será que continuamos sem estratégia capaz de abrandar a crise sanitária e responder com eficácia à crise económica e social? Afinal que políticas estão para ser adotadas como forma de preservar o emprego, segurar o salário e a pensão, garantir os direitos e a dignidade do trabalho?

O debate nacional não pode redundar na dúvida existencial se há festa ou não há festa, ou num entretenimento de irrevogáveis hostilidades lançado, em modo de ultimato, pelo primeiro-ministro. No estilo, já repetido, de vitimização e com a intenção de “encostar à parede” porque se não houver acordo o governo cai e abre-se uma crise política, o desafio é taxativamente lançado à esquerda entre balizas da concordância. Ou estão com o governo, ou terão de estar com o governo.

Deixem-se de fait divers e taticismos circunstanciais porque o problema é demasiado sério e não pode servir como arma de arremesso partidário. Um acordo faz-se sobre pontos concretos, por objetivos definidos e com metas temporais. Para se estabelecer um acordo para este e/ou para este e outros Orçamentos têm que ser assumidos compromissos que respondam às prementes necessidades dos mais vulneráveis, que assegurem capacidade de intervenção nos setores públicos da saúde, da educação, da segurança-social, que garantam a aposta num outro modelo de desenvolvimento assente numa transição ecológica e energética.

Considerando a retoma do ensino presencial como primordial para o sucesso escolar, e atendendo ao que isso implica de desdobramento de turmas e de turnos, como podemos garantir o seu normal funcionamento sem a contratação de mais professores e mais assistentes técnicos e operacionais?

Considerando o SNS como pilar de combate à pandemia e como desafio central para conter a crise sanitária sem descurar os cuidados de saúde e atendimento hospitalar diversificado, como podemos garantir o seu normal funcionamento sem a contratação de mais médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico, assistentes administrativos e operacionais? Aliás compromissos estes constantes do OE em curso e que muitos já dizem ser impensável cumprir. É exatamente o contrário. Impõe-se não só a sua rápida concretização como o aumento substancial dos valores que possibilitem maior número de contratações, sob pena de nos incapacitarmos de meios e ficarmos pela retórica do pretendido a lamentar a catástrofe.

Feito o diagnóstico e comprovado o deplorável modo de funcionamento de um grande número de lares, mesmo sendo estas instituições privadas ou particulares de solidariedade social, para quando um plano de intervenção do estado capaz de pôr cobro ao insustentável e culpabilizar responsáveis? Sem dramatismos, mas infelizmente com a realidade dos factos, trata-se de saúde pública e de salvar vidas humanas.

Num outro campo de intervenção, não tão imediatista mas prioritário de ação, tenho dito e insisto que é preciso equacionar outros modelos de desenvolvimento. Parar para pensar e debater como queremos (re)construir o nosso destino comum.

Mesmo não tendo o nosso país o papel de diferenciador da globalização, não deve deixar de ser uma voz ativa pela exigência dessa diferença. Vamos continuar como se nada tenha acontecido, recuperando, o mais rapidamente possível, o modo produtivista a qualquer custo continuando a incutir os ávidos consumos de um capitalismo desenfreado e a acelerar as desigualdades entre países e pessoas? Ou consideramos mesmo que o caminho a seguir não pode ser o mesmo e que o modelo tem que assentar numa transição ecológica e energética de equilíbrio ambiental e de sustentação dos recursos naturais? Estamos, porventura, num período de tempo mais atreito a esta reflexão e a este confronto com a realidade. Não percamos a oportunidade, sob pena do tempo a tornar irreversível. Não percamos tempo com altercações fúteis, discuta-se o que é discutível.

 

Artigo de opinião publicado no Jornal de Barcelos.