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Agonia do rio!

O rio Cávado está em agonia. Trajetos do rio de elevada extensão encontram-se cobertos de uma planta, o jacinto de água, que é indicadora da má qualidade da água e da existência de fontes poluidoras que degradam gravemente as suas condições ambientais e ecológicas. A título de exemplo, todo o percurso fluvial entre a ponte medieval e a barragem da Penide está pejado desta planta invasora, sendo que em muitos locais forma um manto que torna invisível a água como que estampando a expansão litosférica das margens. 

O rio Cávado, progenitor da nossa cidade, imagem identitária do nosso concelho, património da nossa cultura, memória coletiva da vida de uma comunidade, está em risco. Os barcelenses para além de deverem ao rio a existência da urbe, têm por obrigação saber proteger esta dádiva da natureza, têm por tributo deixar por legado a fruição que já lhes pertenceu, têm por imposição combater a incúria, o desleixo e a ganância, de todos quantos delapidaram os seus recursos e contaminaram as suas águas. Poucas são as cidades deste país que têm um rio que marca indelevelmente a sua paisagem e a sua existência, que rasga simetricamente a geografia de um concelho, que projeta a beleza de uma cidade como um espelho de água reluzente na herança de um povo, que faz o pulsar da comunidade de uma população capaz de agrupar sinergias e erguer pontes de concórdia em nome desta sua pertença.

O poder local alheou-se da defesa deste imenso recurso endógeno. Sucessivas governações autárquicas demitiram-se das funções de vigilância, de equilíbrio ambiental, de valorização das potencialidades lúdicas e desportivas. Durante tempo fizeram-nos crer que esta era a fatura do progresso, da industrialização, e nunca criaram barreiras à poluição pactuando com todos os dislates e negligências. Quando o risco era eminente e o problema desmedido, em parte irreversível, passaram a um discurso de retórica para adensar programas eleitorais e enunciar promessas sem compromissos. A cidade cresceu de costas voltadas para o rio desligando as pessoas da sua existência e esquecendo que os habitantes são os melhores zeladores dos espaços. O resultado está à vista e Barcelos continua sem devolver o rio aos barcelenses. É verdade que se trata de um problema com antecedentes. Desde finais dos anos 70, com o crescimento da indústria têxtil, com as descargas das tinturarias, com a intensificação das atividades agrícolas e pecuárias e com a falta de tratamento dos efluentes domésticos e industriais, a qualidade da água degradou-se. Acontece que pouco ou nada foi feito para minorar o problema e a situação tem-se agravado. Atualmente, as ETAR estão inativas ou já não têm capacidade para tratar todos os efluentes industriais e domésticos, estando em causa o normal procedimento de despoluição e descontaminação desses resíduos. Com total impunidade fazem-se descargas diretas de efluentes sem tratamento para o rio, como a que ainda agora, ignominiosamente, aconteceu em Areias de Vilar, com a agravante de ter origem, tanto quanto se sabe, na empresa que nos fornece a água captada nesse mesmo rio.

Hoje, segunda-feira, participei numa ação de deslinde e remoção dos jacintos de água, levada a cabo pelos bombeiros (Barcelos e Barcelinhos em perfeita consonância). Valorizo imenso o trabalho árduo e moroso que estas pessoas fazem e reconheço que, ao momento, é imperioso fazê-lo. Caso contrário o problema vai-se agravando porque a cobertura densa e entrelaçada desta planta impede a passagem da luz solar e consequente oxigenação, provocando a eutrofização nas massas de água. No entanto o problema não se resolve por aqui, até porque este já é um caso recorrente só que este ano com mais evidencia devido à seca e consequente caudal de estio mais prolongado.      

A recuperação do rio, para além de uma dívida para com os munícipes, é um dos fatores fundamentais de progresso e desenvolvimento para o concelho. Pelo potencial humano, enquanto área de lazer e fruição; pelo potencial turístico, enquanto atração e exploração da economia local; pelo potencial ambiental, enquanto sustentabilidade do meio e qualidade de vida. Ao rio Cávado tem de ser assegurado um verdadeiro projeto de eficiente e sistemática despoluição que passe, nomeadamente, pelo aumento de capacidade de tratamento dos efluentes domésticos e industriais, identificação e controlo das fontes poluidoras, reparação de infraestruturas como açudes e represas, bem como pelos cuidados com a vegetação ripícola e limpeza das margens. Este projeto terá de ser assumido pelas entidades nacionais e regionais que tutelam a bacia hidrográfica e, por outro lado,comprometer e vincular o poder autárquico na sua execução. Será que vamos continuar a assistir passivamente à agonia do nosso rio, ou finalmente estamos em condições de criar um movimento popular capaz de envolver os barcelenses na defesa do que é seu? Disponibilizo-me, desde já, para fazer parte desta luta.