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Clamor pelo clima!

Sexta-feira, 15 de março, dia histórico para uma geração que se levantou, que clamou e que exigiu. Um país inteiro juntou-se em uníssono ao protesto mundial de uma geração que se sublevou por uma causa global e primordial de sobrevivência da “casa comum”, por uma causa coletiva que é a das nossas vidas.

Os jovens organizaram-se, mobilizaram-se e participaram ativa e ruidosamente na defesa do meu, do teu e do nosso planeta. Reclamaram contra o tempo perdido de gerações de políticas e políticos que se limitaram a perscrutar para adiar e deixar avançar a predação capitalista. Exigiram ações prementes e eficazes que repensem o estilo e modo de vida e produzam mudanças no comportamento social e ambiental. Propuseram medidas de resposta imediata e intervenções estruturais de metamorfismo do paradigma de crescimento financeiro, em que a economia suplanta, de longe, a ecologia. Na verdade, não temos tido desenvolvimento na aceção do termo. O progresso económico tem implicado delapidação dos recursos naturais e tem aumentado desmedidamente as desigualdades entre pessoas, países e regiões. Os predadores são altamente competitivos e a relação de forças impossibilita qualquer cedência. Salvar o clima implica transformar o modelo de desenvolvimento, tornando-o sustentável. Travar o consumismo, produzir menos e recuperar mais, deslaçar do egoísmo individualista e partilhar coletivamente. Tudo isto assenta numa lógica completamente contrária ao padrão capitalista.

O grito de alerta destas manifestações despertou inquietações e colocou o tema na agenda da política, tanto pelo dramatismo do que está em causa como pela ganância e hipocrisia dos poderes instituídos. Esta nova geração não aceita mais desculpas e não acredita na representação cénica de reconfiguração do sistema. Enunciam que “só serve para adormecer os povos, neutralizar a reflexão e paralisar as organizações. Colaborar é deixar-se aprisionar na sua teia de aranha”.

A jovem ativista sueca, Greta Thunberg, inspiradora deste movimento, intima e afronta os velhos mandantes ao perentoriamente declarar: “Os adultos estão sempre a dizer que devem aos jovens dar-lhes esperança. Eu não quero a vossa esperança. Não quero que tenham esperança. Quero que entrem em pânico. Quero que sintam o medo que eu sinto todos os dias, e depois quero que façam alguma coisa”.

O desafio com que estamos confrontados é, de facto, imenso. De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, para que o planeta sobreviva precisamos de cortar para metade as emissões globais de gases com efeito de estufa até 2030, para poder estancar alterações que implicam o aumento de fenómenos climáticos extremos. No último decénio registaram-se 8 dos 10 anos mais quentes desde que há registos e se nada for feito em contrário a temperatura média mundial continuará a aumentar. Perante provas de alteração climática inequívocas e com o tempo de ação a esgotar-se, nem sequer o mínimo de objetivos propostos por acordos de arranjos diplomáticos conseguimos cumprir. Os avanços são demasiado lentos e muitas das vezes produzem efeito contrário. Num relatório elaborado por 250 cientistas de 70 países as conclusões são demolidoras. Entre outras, diz-se que na biodiversidade a extinção contínua de espécies é uma constatação; que a contaminação do ar já é responsável por 6 a 7 milhões de mortes prematuras; que a qualidade da água potável está cada vez pior com os rios e lagos infestados de poluentes e, por via disso, um conjunto de doenças associadas; que todos os anos são depositados nos oceanos 8 milhões de toneladas de plástico; que na agricultura temos uma terra cada vez menos fértil e mais contaminada.

Este relatório também conclui que “atividades humanas insustentáveis degradaram globalmente os ecossistemas da Terra, ameaçando as fundações ecológicas da sociedade.” Por isso, “é necessário adotar medidas urgentes numa escala sem precedentes para deter e reverter esta situação e proteger assim a saúde humana e ambiental.”

Sem perceção catastrofista, mas igualmente sem atitude laxista, diria que está na hora de passar de declarações de intenção, em que têm resultado as Cimeiras e os Acordos internacionais, à prática realista de efetivas tomadas de decisão que priorizem a defesa do clima. Já não há meias-tintas, ou mudamos radicalmente ou ficamos suspensos e entregues à proteção da divina tecnologia. Os jovens são mais de metade da população global que cresce com as alterações climáticas e têm de lidar com elas para o resto da vida. A crise climática tem de ser tratada como tal, porque representa a maior ameaça da história humana. Pouco há a esperar de quem nos conduziu à catástrofe ambiental, sendo que os seus impactos devastadores já são sentidos por milhões de pessoas em todo o mundo e mesmo assim o cinismo de poderosos presidentes e a inação dos governos à escala mundial continua a ser a orientação dominante.

Não se trata de questões epistemológicas ou de matérias políticas abstratas, mas de escolhas muito concretas e medidas objetivas. Quando os jovens dizem que “a solução está na nossa geração” querem precisamente dizer que as decisões governamentais são para hoje e o acerto de resoluções internacionais não podem esperar mais, sob pena de se manter a inoperância e a propositada inércia que faz perdurar no tempo a perigosidade do aquecimento global.

Os jovens geraram um movimento social sem precedentes em nome de uma causa vital para o planeta. É a “nossa casa” que está em perigo, somos nós que estamos em risco, é o futuro que pode ser dramático. Agradeço aos jovens que saíram à rua, que ergueram a voz da reivindicação, que içaram a bandeira de uma luta que é de todo(a)s. Numa visão localista regozijo-me pelos estudantes barcelenses que fizeram uma grandiosa manifestação e colocaram a nossa cidade no mapa da contestação. Não deixem enviesar o debate e colocá-lo no patamar da burocracia legalista se têm, ou não, direito à greve, ou se as faltas são, ou não, justificadas. Nem aceitem a conceção paternalista de que são muito novos para certificarem a reivindicação e afrontar interesses avassaladores. Mostraram com dignidade que sabem porque exigem e que é pelo clima que clamam. Espero que se mantenham ativos e que continuem a afirmar convictamente - “Vamo-nos sublevar até que haja justiça climática”.

Artigo publicado no Jornal de Barcelos