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2020, década da esperança!

Dois mil e dezanove foi um ano em que o mundo assistiu a uma mobilização à escala global sem precedentes, clamando por urgente intervenção contra as alterações climáticas capaz de parar a desgraça, inverter a tendência catastrofista e projetar um futuro sustentável.

Grandiosas manifestações de jovens, inspirados por Greta Thunberg – figura franzina com categórica personalidade, marcaram a agenda mundial reclamando por ação imediata. Milhões de pessoas saíram à rua e exigiram resposta dos governantes com novas e diferentes políticas. Imensas organizações ambientalistas evidenciaram caminhos alternativos e projetaram metas. Foi gerada uma expetativa generalizada de mudança de comportamentos que obrigatoriamente altera paradigmas, tanto ao nível da produção quanto de hábitos de consumo.

O diagnóstico está feito e certificado. Temos de reduzir drasticamente as emissões de CO2, cortar em 50% as emissões de GEE, a temperatura global não pode exceder o aumento de 1,5ºC. Para atingir estes cruciais objetivos, entre outras medidas, ter-se-á que fazer uma transição energética no processo industrial e nos transportes, uma reconversão agroflorestal que implique alterações profundas no uso do solo, uma radical diminuição do uso de plásticos, uma perspetiva da água como um bem vital de recurso ecológico e social. Compete aos países mais desenvolvidos reconhecerem, efetivamente, a emergência climática e mudar rapidamente os padrões de produção e consumo e simultaneamente apoiarem as débeis economias dos países em desenvolvimento, adaptando-as a uma maior contribuição para os novos patamares de melhoria das condições climáticas.

O muito que há para fazer tem de começar agora. É tempo de agir e os progressos têm sido poucos. Foram frustrantes os resultados da 25ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP25) que recentemente decorreu em Madrid.

Quando os governos mundiais tinham nesta COP a oportunidade perfeita para elaborar e acertar os planos de intervenção e acordar respostas ao estado de emergência climática, o resultado foi, novamente, o adiar do problema apresentando como acordo final um texto de enunciação de promessas sem qualquer comprometimento, nem assumir de responsabilidades.

Os líderes mundiais da conformidade, mais uma vez, valorizaram a economia em detrimento da ecologia, discursaram autocentrados nos seus proveitos sem qualquer solidariedade mundial, colocaram a política ao serviço dos interesses dos combustíveis fosseis em detrimento das pessoas e do planeta.

Comprovou-se a desligação, como que um divórcio de objetivos, entre a manifestação popular pela exigência de ação e as instituições do poder governamental pelo conservadorismo das conveniências.

Mas a grande novidade deste ano é que o movimento popular tornou-se imparável e, quer queiram quer não, a reconversão ter-se-á que fazer com e pelas pessoas. Os governos não podem ignorar a enorme mobilização global de opinião pública exigindo respostas urgentes.

2020 inicia uma década de transformação, de ambição à escala mundial, de mudança pela proteção da casa comum. É uma janela de oportunidade que não podemos fechar, sob pena de nos autodestruirmos. Temos de prevenir o caos climático e converter o sistema numa perspetiva de sustentabilidade. O futuro é hoje e o desafio é sermos capazes de transformar. Entramos na década da esperança e todos somos chamados a fazer parte da história da humanidade em defesa de nós próprios. Bom ano com boas lutas.